sexta-feira, 28 de novembro de 2008

"A minha melhor/pior experiência bambiarra" ou "como abrir a caixa de pandora" por FC

Escrever uma crónica sobre “a minha melhor/ pior experiência bambiarra” é um exercício difícil atendendo ao número de anos que já levo no Bambiarras Futebol Clube. Até porque sou certamente um dos totalistas de todos os jogos do BFC no Natal e nem sei se mais bambiarras se podem orgulhar do mesmo feito. Apesar dessa qualidade de veterano – tantas vezes lembrada pelo jovem AB - garanto-vos que não farei apelo à minha memória criativa para descrever, em câmara lenta, inexistentes golos em pontapé de moinho, reviengas troca olhos ou passes de letra. Até porque de glórias passadas vivem os museus*. E o Benfica.


O meu pior momento bambiarra é uma decisão que me custou uma chuva de críticas e uma repetição incessante da mesma história ao longo dos anos (e vai continuar…) – a substituição do Paulo Serrão aos 20m de um jogo na Camacha. Se bem me recordo, o culpado dessa situação não fui eu mas o despertador preguiçoso do Luís Nuno Olim que transformou o Paulo de “repórter fotográfico/guarda-redes suplente para aquecer para o banho” em “titular indiscutível”. O Paulo, dado que estava bom tempo e tinha champô de amêndoas em casa apareceu, bem cheiroso e à hora marcada, no Olimpo para tomar o seu frugal pequeno-almoço. O Luís Nuno, apesar dos meus inúmeros telefonemas, só apareceu na Camacha já depois do jogo ter começado. Nessa altura já tínhamos encaixado dois golos através das mãos cremosas (da bola de Berlim) do Serrão. Num gesto de que me arrependerei para sempre, fiz sinal ao Serrão para sair. Não porque “tecnicamente” (signifique isto o que significar no contexto bambiarra) a substituição não fizesse sentido (na altura fazia) mas porque o Serrão tinha o seu brio de guarda -redes a defender e, com aquele gesto, queimei um atleta, destrui uma carreira e quase perdi um amigo. Ainda hoje revejo, com grande arrependimento, a cara de surpresa e tristeza do Paulo. Esses foram os momentos mais difíceis do meu passado bambiarra – ter de, uma vez por ano, escolher os melhores, misturando-se amizade com qualidades futebolísticas (signifique isto o que significar no contexto bambiarra). É, pelas relações pessoais de muitos anos, um exercício mais complicado de fazer do que numa equipa profissional. Passados alguns anos, o Paulo “esqueceu-se” de devolver ao Luís Nuno uma camisola do Brasil que ele lhe tinha emprestado (ver foto da “mítica” equipa do BFC) e exorcizou a sua “besta negra”. Felizmente nunca mais terei de mandar o Serrão para o banco!


Essa é a minha melhor experiência bambiarra – a minha demissão no ano passado. Para além da enorme galhofa que provocou com os discursos e candidaturas ao meu lugar, posso, daqui em diante, viver o meu dia bambiarra sem me preocupar com a convocatória, o adversário, o lugar do jogo, o transporte para o jogo, o árbitro, o equipamento, o pagamento do equipamento, a hora da concentração, a comparência na concentração – já não terei de ligar à mãe do Bomba a pedir para acordá-lo, já não terei de procurar saber se o BB conseguiu chegar a casa na véspera sem treinar boxe, se o Caguincha engatou as gémeas do Curral e está perdido na Eira do Serrado, se o RM decidiu ir ao CHF fazer uma visita ao sogro, se o Luís Nuno atende o telefone, se o MP tem os equipamentos que pedimos emprestados, se o GH mudou de equipa durante a noite, etc. – a chegada ao campo a horas, emprestar meias (“onde estão as meias? pensei que não era preciso trazer meias”) a táctica para o jogo, os suplentes amuados, o almoço e a conta do almoço. Julgo que a única coisa que não fazia era levar os sabonetes para o banho porque o Boneca leva sempre uma dúzia. De agora em diante sou mais um na manada bambiarra. Não só não tenho de me preocupar com nada como posso, com enorme fervor como é habitual no BFC, criticar a nova junta directiva. Óptimo!


Tivemos inúmeras aventuras ao longo destes anos com os episódios agradáveis a sobreporem claramente às poucas situações em que as coisas correram mal. Espero que assim continue e que possamos, por muitos e bons anos, continuar a viver o espírito bambiarra com grande entusiasmo. Não se esqueçam – mais vale ser bambiarra por um dia do que jogador de futebol toda a vida!

Francisco Costa

*Uma crónica num contexto de futebol não fica completa sem uma afirmação destas. Faltou “plantel” embora tenha usado “manada”. Fica para a próxima.

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